Vida Besta


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22/04/2005 19:48
São quinze pras quatro da tarde e não sei por que, mas sinto que adoraria comer uma berinjela à parmegiana bem gordurosa sem culpa, cheia de mussarela, mas tinha que ser feita pela minha mãe, que em empanava as finas fatias uma por uma, depois fritava, depois fazia camadas com molho, muito parmesão...
Mas estou aqui no computador espiando uma barata que se enfiou embaixo dos sacos de lixo do quintal. Eu dei uma “espreiada” nela de baratox e ela ficou zureta e correu pra morrer em paz.
Olho pros prédios e vejo um céu muito muito azul, no prédio mais próximo as janelas das áreas de serviço estão abertas e as roupinhas daqueles varais de teto estão balançando... pra cá, pra lá. Os donos das roupas estarão no trabalho, resolvendo questões, na aula? E as roupas desocupadas balançando e brincando ao sol.
Mas em vez de berinjela que não é hora vou passar um cafezinho na minha cafeteira italiana nova vagabunda e fajuta que comprei no Mambo e que mal cabe nas grades do fogão e fica cai-não-cai. Pego um pão, passo manteiga e enfio dentro da caneca de café - lembranças infantis, por que será tão bom?
O gosto me traz a vidinha da rua Maria Monteiro, em Campinas. De tarde a gente ia no bar do seu Miguel português comprar pão, era “filão”, não era francês nem baguete, ele embrulhava num papel pardo, e as crianças de casa pegavam os trocados para comprar doce, ou bala (tinha baleiro) e amendoim japonês. A gente na pontinha do pé e o português com sua língua macarrônica pedia a “caderneta” para anotar a compra, nas vezes que minha mãe não tinha dinheiro em caixa.
Depois dona Luizinha fazia café coado no coador de pano e a gente comia desse jeito, com pão e manteiga, mergulhando no copo. O café ficava com umas bolhas de gordura... É, a gente usava daqueles copos que se diz “americanos”. E brigávamos pra ver quem ficava com o “bico” do pão!
Mais do que fome ou desejo de comer, um cheiro arquivado das tardes desocupadas enche a minha cabeça agora, o desejo não é propriamente comer, é trazer de volta no tempo a sensação de pertencer ao mundo e tudo poder. Sair na rua e pegar a bicicleta e apostar corrida ou chamar as crianças da rua e ficar à toa no muro de casa inventando coisas. Ou ficar agachada de quatro no jardim com o nariz cheirando terra e procurar moranguinhos que meu pai plantava no meio das rosas e comê-los antes de ficarem vermelhos.
A casa da minha amiga Isa tinha cheiro de cera, daquelas ceras pastosas que vinham em lata, o piso era vermelho de cerâmica todo encerado. O lado de dentro da casa rescendia a sabão em pó e limpeza, até hoje não posso sentir esses cheiros sem lembrar da casa dela. Naquela época a gente usava conga branco pra fazer ginástica no colégio e como as pessoas enceravam os pisos com cera colorida, a sola dos tênis ficava eternamente avermelhada.
Às vezes a Isa e eu abríamos uma lata de leite condensado de tarde e botávamos um monte de Nescau dentro, depois ficávamos fazendo lição de casa na mesa da cozinha, passando a limpo os infindáveis cadernos de História da Dona Lourdinha e comendo aquela bomba atômica. Tão bom, tão despreocupado, naquele tempo não existiam as calorias, nem o colesterol, nem os radicais livres, nem a culpa pela gulodice, só as tardes de leite condensado e os domingos de berinjela à parmegiana...

enviada por Penélope






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